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    Um estudo publicado pela Boston Consulting Group em junho de 2026 traz um dado que deveria estar em toda reunião de diretoria que discute investimento em IA: 74% dos trabalhadores de linha de frente já usam inteligência artificial regularmente — alta de 23 pontos percentuais em relação a 2025. Entre os usuários frequentes, 42% dizem economizar pelo menos um dia inteiro de trabalho por semana.

    Até aí, a história é de sucesso. O problema aparece na linha seguinte da pesquisa: 66% desses profissionais recebem pouca ou nenhuma orientação sobre o que fazer com o tempo economizado, e mais da metade diz que ele não está sendo redirecionado para trabalho de maior valor. A empresa comprou a ferramenta, a ferramenta funcionou, e o ganho está evaporando — sem que ninguém tenha decidido que deveria ser assim.

    A decisão subiu de nível. O problema não subiu junto

    Esse dado fica mais estranho ao lado de outro levantamento da mesma consultoria, de janeiro de 2026: 72% dos CEOs já se colocam como o principal decisor de IA dentro da própria empresa — o dobro do ano anterior. A lógica declarada é que decisões de IA afetam receita, experiência de cliente e estrutura de trabalho ao mesmo tempo, e nenhum executivo funcional isolado tem mandato pra decidir por todas essas frentes ao mesmo tempo.

    Ou seja: a decisão sobre IA já chegou à mesa certa. E, mesmo assim, o tempo que a ferramenta libera continua se perdendo no nível operacional. Isso indica que o gargalo não é de patrocínio executivo — é de redesenho de processo.

    O erro por trás do dado, segundo João Paulo Batistella

    João Paulo Batistella, executivo de inovação e especialista em transformação organizacional, descreve exatamente esse padrão ao analisar por que projetos de IA corporativos entregam menos do que prometem: “a maioria está tentando automatizar o legado, quando deveria usar a inteligência artificial para redesenhar o próprio negócio.” Uma ferramenta que economiza tempo dentro de um processo que não mudou não cria valor novo — só deixa o processo antigo mais rápido, com o tempo sobrando sem destino definido.

    Batistella também aponta a raiz de por que isso se repete mesmo com o CEO no comando da decisão: “colocar uma ferramenta nova sobre uma estrutura antiga não significa transformar o negócio.” Aprovar o investimento no nível certo é necessário, mas não é suficiente — falta a etapa menos visível de decidir, processo por processo, o que muda no trabalho quando o tempo é liberado.

    Três perguntas antes do próximo relatório de adoção de IA

    1. Quando um time começa a economizar tempo com IA, existe alguém responsável por decidir onde esse tempo deveria ir — ou ele só desaparece na rotina?
    2. A métrica que a empresa acompanha é “quanto tempo a IA economizou” ou “que resultado novo esse tempo gerou”? São perguntas diferentes, e só a segunda mede valor.
    3. Se a resposta às duas perguntas acima não existe, o investimento em IA está sendo tratado como ferramenta — não como redesenho de processo.

    O dado da BCG não é motivo pra desacelerar a adoção de IA — é motivo pra tratar a etapa seguinte com o mesmo rigor que se deu à aprovação do investimento.

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    Eleva Editorial